Paris Paloma é a voz que ecoa na casa

Quando eu estava crescendo, o rock era trilha sonora. Tocava na rádio, passava na MTV, ocupava espaço. Hard rock, metal. Era alto, exagerado, colorido. A MTV ainda não tinha reality show — tinha Gás Total, Disk MTV. O rock parecia diversão, excesso, juventude sem muita consequência.

Com o tempo, tudo foi mudando. A vida ficou menos ingênua, e o rock também. Veio o grunge: mais sujo, mais soturno, mais econômico. Menos pose, mais angústia. Ainda assim, deixou marca. Na moda, principalmente. A coleção grunge que fez o Marc Jacobs ser despedido da Perry Ellis segue intacta na minha memória afetiva.

Sugar Kayne do Sonic Youth foi gravado durante esse desfile. Informações da Wikipedia são de que o baixista da banda era amigo do estilista.

Assobiei no chuveiro com Axl Rose. Estudei com David Coverdale preenchendo o silêncio. Desenhava ouvindo rock “velho”, e em alguns dias ia direto ao fundo do poço com o Eddie Vedder. Por muito tempo, achei que tinha tido uma trilha sonora incrível para a minha vida.

Até que uma pergunta começou a incomodar: onde estavam as mulheres?

Claro, elas existiam. Eu ouvia Suzi Quatro, Joan Jett, Janis Joplin, Lita Ford. Mas elas nunca foram o centro. Nunca foram as rainhas da trilha sonora. Também ouvia Madonna, Spice Girls (sim, risos), mas isso ficava num compartimento separado, quase como se não tivesse o mesmo “peso”. Quando penso nas músicas que marcaram minha adolescência, tudo soa como Rock of Ages: um musical divertido, exagerado, totalmente desconectado da minha realidade.

Eu assistia aos clipes, cantava, dançava — e esquecia. Nada ali conversava com meu corpo, com meu visual, com meus sonhos, com minhas angústias reais. Era entretenimento. Não era espelho.

Com o tempo, meu jeito de consumir cultura mudou. O filtro ficou mais afiado. Música, moda, cinema — tudo passa por uma pergunta básica: o que isso está dizendo? E aí dói perceber.

Dói perceber quanta violência contra a mulher foi normalizada em letras que eu sabia de cor. Quanta misoginia foi embalada em riffs de guitarra. Como quase não havia artistas negros no hard rock que eu consumia. Como meninas de 14, 15, 16 anos eram chamadas de groupiesum eufemismo nojento para dizer que estavam “disponíveis” para homens adultos endeusados pelo palco.

Nada disso era questionado. E nós, meninas, aprendíamos cedo a não questionar também.

Os anos passaram, com eles, a certeza de ter vivido experiências universais às mulheres. Eu mudei muito, aprendi muito, a ingenuidade deu lugar a alguma lucidez. O casamento e o nascimento da minha filha marcam de vez a entrada no mundo adulto, claro. E aí vem a preocupação número 1 das mães: como a mídia retrata o mundo? O que nossos filhos aprendem a normalizar?

E em meio a tantas mudanças e sentimentos, a trilha sonora também mudou de estação.

Hoje, na minha casa, ecoa a voz de Paris Paloma. E nada poderia ressoar mais comigo. Suas músicas falam de exaustão, raiva contida, limites e identidade. Falam com uma mulher adulta. Mãe de menina. Esposa. Cansada de ter que performar competência, doçura e resistência ao mesmo tempo.

E tudo o que eu consigo pensar é isso:

Paris Paloma, você fez falta enquanto eu crescia.
Mas ainda bem que você existe agora.
Ainda bem que minha filha vai crescer ouvindo mulheres que não pedem licença para existir.

PS: eu amo suas roupas.



Sugestão de leitura: Brick by Bigoted Brick: The Misogyny That Built the Rock Scene

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2 Comentários

  1. O rock era algo que excluía as mulheres, pelo menos me refiro ao mainstream. Além disso, nos objetificava. Eu nem pensava nessas coisas naquela época, precisávamos mesmo de uma Paris Paloma. A propósito, obrigada por me apresentar essa artista!

    1. Sam, a gente era muito novinha para entender o quanto internalizou dessa objetificação. Mas que bom que evoluímos, aprendemos e vamos criar filhos com um olhar mais apurado!

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