A Shein não é o problema. É o sintoma.

Fast fashion 2.0 — e o espelho que ninguém quer encarar

É fácil odiar a Shein. Os números são escandalosos, as imagens das fábricas são perturbadoras e o modelo de negócio parece desenhado para ser o vilão perfeito de um documentário sobre o fim do mundo têxtil. E tudo isso é verdade.

Mas focar só na Shein é confortável demais. Porque enquanto apontamos para Guangzhou, não precisamos olhar para o carrinho de compras.

A Shein não surgiu do nada. Ela surgiu de uma demanda real, enorme e crescente por roupa barata, descartável e constantemente nova. Ela é uma resposta de mercado, e mercados respondem ao que as pessoas compram. O problema não começa em Guangzhou. Começa muito mais perto.

O que a Shein faz — e em que escala

A empresa foi fundada em 2008 na China como uma loja de vestidos de noiva online. Em 2015 pivotou para moda feminina geral. Em 2022 era a maior varejista de moda do mundo. Em 2023 faturou 32 bilhões de dólares, com lucro líquido de 2 bilhões, e foi baixada mais de 260 milhões de vezes.

O que separa a Shein de qualquer fast fashion que veio antes é a velocidade e o volume. Segundo análise da empresa de inteligência de mercado TechBuzz China, a Shein adiciona em média 6.000 novos produtos por dia ao seu catálogo. Para ter comparação: a Zara, que antes era considerada a rainha das coleções rápidas, lança algumas centenas de produtos por semana. A Shein lança mais do que isso por hora.

O mecanismo por trás disso é um algoritmo de inteligência artificial que monitora tendências em tempo real, identifica o que está performando nas redes sociais e comunica aos fornecedores o que produzir — muitas vezes em lotes de apenas 100 a 200 peças por modelo. A empresa chama isso de produção sob demanda e usa esse argumento para dizer que gera menos desperdício do que os modelos convencionais. Isso é tecnicamente defensável. Mas esconde que o volume total de produção é incomparavelmente maior.

As emissões que não param de crescer

Em setembro de 2024, o relatório de sustentabilidade da própria Shein confirmou que a empresa emitiu 16,7 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono em 2023, o equivalente à emissão anual de mais de quatro usinas termelétricas a carvão. Uma análise do Business of Fashion concluiu que as emissões da Shein cresceram quase o dobro do ritmo de crescimento da receita, tornando-a a empresa de maior impacto climático em todo o setor de moda.

Em 2024, as emissões aumentaram mais 23%. A empresa cresceu 19% em vendas no mesmo período. As emissões cresceram mais rápido que o negócio.

Grande parte desse impacto vem do modelo de entrega. Ao contrário de marcas que consolidam cargas por via marítima, a Shein envia pacotes individuais por via aérea diretamente ao consumidor. Em julho de 2023, a empresa estava despachando cerca de 900 mil pacotes por dia só para os Estados Unidos. O transporte responde por 38% de toda a pegada climática da marca.

A Shein prometeu reduzir 25% das emissões até 2030 e atingir carbono neutro até 2050. Ao mesmo tempo, na Alemanha, foi forçada por ordem judicial a retirar o termo ‘net zero’ de suas comunicações de marketing, depois que a ONG Deutsche Umwelthilfe demonstrou que a linguagem era enganosa dado o crescimento contínuo das emissões. Prometer carbono zero enquanto as emissões crescem 23% ao ano é o greenwashing em forma de matemática.

O poliéster que não vai a lugar nenhum

Há outro número no relatório da Shein que merece atenção: 76% de todos os tecidos usados pela empresa são poliéster. Apenas 6% desse poliéster é reciclado. O restante é poliéster virgem, derivado de petróleo, produzido para fazer uma peça que vai ser usada algumas vezes e descartada.

Poliéster é barato, durável e fácil de produzir em escala. Também libera microplásticos a cada lavagem, que chegam aos rios, aos oceanos e à cadeia alimentar. E não se decompõe. Uma camiseta de poliéster jogada fora hoje vai estar intacta daqui a 200 anos.

A meta da Shein é que 31% do poliéster de seus produtos de marca própria seja reciclado até 2030. Isso significa que, mesmo cumprindo a meta, 69% do poliéster ainda será virgem, em volumes absolutos muito maiores do que hoje porque a empresa continua crescendo.

Nós criamos a Shein

Aqui é onde a conversa fica desconfortável.

A Shein tem 88 milhões de usuários mensais ativos. A hashtag #SheinHaul, onde pessoas filmam as dezenas ou centenas de peças que compraram de uma vez, acumula mais de 10 bilhões de visualizações no TikTok. Não são bots. São pessoas reais, a maioria jovens, comprando quantidades de roupa que as gerações anteriores jamais teriam acesso ou desejo de acumular.

Esse consumo não surgiu do vácuo. Ele foi cultivado por décadas de marketing que associou quantidade a valor, novidade a status e atualização constante do guarda-roupa a identidade. A Shein não inventou o consumo de moda como entretenimento. Ela apenas levou essa lógica ao seu limite lógico: se roupa descartável é aceitável, por que não fazer mais barata e em maior volume? Se a tendência muda toda semana, por que não lançar novidades todos os dias?

O pesquisador Sage Lenier, diretor executivo da organização Sustainable and Just Future, colocou de forma direta: “A Shein e a Temu simplesmente não poderiam existir sem inteligência artificial.” O que ele quis dizer é que a escala desse modelo só é possível com tecnologia. Mas o mesmo vale para o consumo: ele só é possível com um público disposto a comprar.

A Shein é um espelho. E espelhos não têm culpa do que mostram.

O que muda — e o que precisa mudar

Há sinais de que o ambiente está mudando. A França aprovou uma lei que prevê taxação de até 10 euros por peça de ultra fast fashion até 2030, além de restrições a publicidade. Na Alemanha, a Shein foi obrigada a rever sua comunicação sobre sustentabilidade por ordem judicial. Nos Estados Unidos, há pressão crescente para encerrar a isenção aduaneira de de minimis, que permite que pacotes com valor abaixo de 800 dólares entrem sem taxação, viabilizando preços que seriam impossíveis de outra forma.

Mas regulação resolve parte do problema. O resto depende de uma mudança de como encaramos o consumo de moda. Não se trata de nunca mais comprar uma peça barata. Trata-se de perceber que a pergunta ‘posso pagar?’ virou a única pergunta que fazemos, quando há outras igualmente relevantes: quem fez isso, em que condições, e o que acontece com essa peça daqui a seis meses?

A Shein vai continuar existindo enquanto houver demanda pelo que ela oferece. E enquanto houver demanda, vão surgir outras Sheins, mais rápidas e mais baratas. O problema não é uma empresa. É um sistema. E sistemas mudam quando as pessoas que os alimentam decidem fazer diferente.

Isso não é ingenuidade. É a única coisa que funciona no longo prazo.

Fontes e referências

Grist / Yale Climate Connections — ‘Shein is officially the biggest polluter in fast fashion’ (setembro 2024): grist.org/technology/as-fast-fashion-giant-shein-embraces-ai-its-emissions-are-soaring

Impakter — ‘Shein’s Carbon Emissions Skyrocket: What’s Behind the Surge?’ (janeiro 2026): impakter.com/shein-carbon-emissions-skyrocket-2024-spike-analysis

Trellis — ‘Shein revises net zero language in Germany after activist complaint’ (fevereiro 2026): trellis.net/article/shein-net-zero-greenwashing-germany

TechBuzz China — ‘Shein 2024 update: global growth, logistics, assortment and product development’: techbuzzchina.substack.com/p/shein-2024-update-part-1-global-growth

Business of Apps — Shein Revenue and Usage Statistics 2026: businessofapps.com/data/shein-statistics

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